Quando o amor dói

Se nem tudo são rosas, é importante saber:

A mãe é o primeiro amor de qualquer ser humano e não raro também é a primeira e mais profunda dor, daquelas de levar para a vida toda.

As mães nos dão a vida, vida que às vezes começa com muita frustração. As emoções captadas desde o útero, medo, solidão, rejeição, até a irritação que torna amargo o mamar. Toda abnegação que molda a vida de uma mãe, disposição que depende de um amor incondicional, amor este que às vezes simplesmente não foi aprendido, jamais foi vivido. E assim seguem e prosperam relações complicadas e um grande sofrimento de geração em geração. Tanto mãe como filho(a) são vitimas na falta de vínculo genuíno e por todas as emoções que sucedem disso, culpa, humilhação, raiva, rancor.

Há também uma grande pressão social que coloca as mães num pedestal, com altíssimo padrão e ideais a serem sustentados com sangue, lágrimas e suor. Mas as vezes a mãe não estava pronta para essa sagrada função, não teve apoio e suporte, não teve consciência psicológica ou emocional para suportar e desenvolver as habilidades necessárias. Às vezes essa mãe é uma pessoa que nunca teve o cuidado, atenção e valorização ideais, que viveu com carência, com mágoa, buscando de qualquer forma preencher esse vazio, de formas saudáveis ou não. E você sabe, ninguém pode dar aquilo que não tem, mas isso é muito mais profundo e complexo do que parece. Quem recebe rejeição devolve para o mundo a incapacidade de ser amado, inclusive de amar a si mesmo e assim torna-se incapaz de amar verdadeiramente qualquer outra pessoa. Assim, o ciclo de carência, agressões e frustrações se perpetua.

Existe também uma pressão social sobre o que é ser filho, respeitar e obedecer a mãe, jamais criticar ou se afastar. Isso também perpetua a culpa, a frustração, o sofrimento; toda essa energia negativa fica contida pelo ideal de filho e hora ou outra escapa em explosões, provocações ou brigas descomunais, ou ainda volta para a pessoa, que proibida de odiar a mãe, passa a odiar a si mesmo e mata dentro de si mesmo a mãe, ou seja, mata a própria capacidade criativa, sua capacidade de gestar e nutrir o seu projeto de vida. Assim perpetuamos uma sociedade de pessoas incapazes de amar e incapazes de produzir, pessoas completamente vazias de amor e de propósito, que para honrar sua dor, frustram os outros, como se isso fosse resolver alguma coisa.

O ideal segue forte e honrar a mãe pode ter um significado muito mais libertador. E se passarmos a honrar a capacidade de amar, em primeiro lugar a nós mesmo? E se usarmos essa energia para superar a incerteza, a insegurança, a crítica e passarmos a criar a vida que queremos para nós mesmos, a estabilidade, o amor que tanto desejamos.

Honrar mãe é romper esse vínculo de sofrimento e desamor.

Isso significa romper com esses ideais de mãe e filho perfeitos, precisamos aceitar as mães e filhos reais. Aprender a amar a vida como ela é, ao invés de supervalorizar a frustração, apegados a como gostaríamos que fosse.

Nada será como você espera, não adianta esperar. A mãe não é o objeto de prazer do filho, o canal de realização. Essa mentalidade leva sempre a uma busca do amor e satisfação no externo, em qualquer lugar, qualquer amor, custe o que custar, para o resto da vida.

Pode ser que a mãe seja tóxica, ou tenha deixado a desejar no cuidado, proteção e afeto. Mas será que ela poderia ter sido diferente? Será que toda a ancestralidade poderia ter sido diferente? Se você tivesse vivido a vida dela, será que você teria feito algo diferente? Bom, se você tem a consciência e amor para perceber o que poderia ser melhor, então aproveite esse privilégio para acabar com essa corrente de sofrimento na sua família, para deixar de ser uma pessoa tóxica nas suas relações, parar de permitir abusos e, principalmente, para inverter os ciclos de morte e sabotagem dentro de você, assumindo a sua responsabilidade pela sua realização pessoal, para viver a sua criatividade, seu verdadeiro propósito de vida!

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